3 POEMAS DE GASTÃO CRUZ

3 POEMAS DE GASTÃO CRUZ

DESCREVO O CORPO

Descrevo o corpo como alguém

que responde somente ao som do tempo

e que não sabe nem

se o chama o som do sangue nem se o tempo

se move ou pára quando pede

alguém que diga alguém as ilegítimas

falas alheias Cede

então o próprio corpo à voz das vítimas

no tempo vil aprisionada

Olhando-se, o actor repete a fala

na mágoa transportada

do palco naufragado Entrenta a sala

morta revolta como água

desidratada Quem a voz escuta

de um mar de mágoa?

Falas alheias são a tua luta

com a memória Se me pede

um corpo que descreva o corpo, olho

o mar como quem mede

a água que de cima ainda olho

do palco náufrago cantado

como cantei outrora uma cidade

O corpo é também água

batendo contra um cais desidratado

A PAISAGEM

Essa foi a paisagem, nada abstracta,

aos poucos revelada a uma luz

crescente insinuada dentro da

casa depois na rotação

das asas sempre as aves expandindo

designações perpétuas no momento

de cobrir com a fala o céu

aí se debruçaram  corpos desconhecidos

sobre a cara, esperando

por começar; então a porta tornava-se

mais clara e já não se sabia

se existia porque o exterior

perdia a forma ou era realmente

a casa que a perdia e o rosto do

pai já vinha para morrer

embora continuasse a regressar

a casa muitos dias sempre que no jardim

ao fim do dia começava aquele

bater de asas semelhante ao,

talvez menos abstracto, do início

Sempre as aves voltando me ensinavam

alguma coisa mais do que viria,

um pouco como sempre acontecia

com o bater do mar quando se ouvia

durante a noite ou ao nascer do dia

esse ruído certo entre as dispersas

palavras que no sono se partiam

dos que em barcos chegavam pela ria

Para tudo haveria uma razão

audível  ou visívelmesmo que

nem sempre o entendimento fosse além

das razões da poesia Era essa

a paisagem onde tudo

caberia uma existência

gravada só no esquecimento que

nela baixará, cenário da memória

por começar quando nomes houver

que possam designar

as caras sobre a cara debruçadas

QUESTÕES DE TEMPO

1

O que representava esse arrepio

que com a noite vinha e me fazia

duvidar que pudesse em outro tempo

voltar a ver o corpo da alegria?

Todo o tempo é composto por enigmas

toda a mudança que eles significam

desaguará em perda esse o sentido

da noite que responde agora na

floresta do passado às aves fugitivas

2

São os lugares que nos fogem ou

nós que lhes fugimos

tornando-os intocáveis como

estrelas para as quais nem era

legítimo apontar quando

há tão pouco ainda descobríamos

a sua posição no verão que da pele

fazia um espelho igual ao céu?

Esses lugares é com o pensamento

que varremos o que foi vida neles?

Ou ela permanece percorrendo

a estrada até ao tempo que formaram

lugares transformados pela mente?

Se o espaço forma o tempo então a vida

refaz-se quando o olhar

sobre o céu do verão de novo incide

 

Tempo total: 16:34

Música: Brian Eno – Music for Airports-Ambient 1 (1-1)

Mix: Anatoly Brooks

Uma fotografia de Pooya Ahmaripour

ZIP

MP3